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Entorno, Murilo Maia









Em torno

Ironia, contradição, justa-posição, humor, acaso, oposição, atração, relação...
Palavras que vêm na mente ao observar os trabalhos de Murilo Maia, não só os presentes nesta mostra, mas todos os realizados até aqui.
As obras apresentadas aqui carregam sim, as citadas e outras idéias, envoltas por elementos urbanos, naturais, espaciais, sensoriais e psicológicos.
Na história da arte, desde as vanguardas até hoje, se vê a constante negação a um modelo “clássico”. Clássico não apenas em referência à pintura ou a música clássica e sim a um pensamento clássico, ligado a idéias de coerência, homogeneidade, ordem, verdade e evolução.
A capacidade de hibridação e a mistura de raças e culturas são inerentes ao povo brasileiro, o que vai de encontro às idéias clássicas. Na arte, essa característica é indispensável, pois o choque de coisas diferentes, paradoxais, torna a obra, passível a uma quantidade maior de interpretações. Atração por estranheza produz significado.
A partir das obras de Murilo Maia, visualizamos bem estes conceitos. Corpos estranhos unidos pela ação humana ou pelo percurso natural das relações ambientais. Envolvimento por necessidade ou por ocasião. Habitar e ser habitado, conter e estar contido. O entorno e o estar em torno de...
“Passivo-ativo” (2004) é o trabalho que inaugura a exposição por motivos especiais. É o trabalho mais antigo do artista entre os expostos aqui e dá início a idéia que acredito ser o objeto de observação de Murilo nesse e nos trabalhos seguintes.
Pás enterradas e martelos pregados na parede. O objeto que sofre a sua própria ação.
Ele é submetido a uma situação inesperada de convivência forçada com o elemento opositor, elemento este que seria naturalmente o principal receptor de sua ação.
O artista produz uma desestabilização aos nossos olhos. “Disfuncionaliza” aqueles objetos tão tediosamente definidos e estáveis no mundo.
Um painel, em que vemos letras que se repetem, postas lado a lado, trazem o texto “Dias Longos” (2008), título do trabalho composto por este painel e duas fotografias.
Este é o trabalho em que o artista busca e encontra algo que vai além de aspectos formais e imagéticos e podemos ver uma relação conflituosa entre um indivíduo, no caso o próprio artista e o espaço que está em torno dele.
Como insinua o próprio texto, o tempo foi dilatado e traz com ele uma angustiante espera, afirmada também pelo espaço vazio e aparentemente silencioso, ausente de qualquer movimento ou ação.
O ambiente oferece locais de passagem, mas algo parece impedir a fuga. O ambiente de certa forma é nesse momento seu principal comunicante, lhe é confortável e pouco desafiador, ocasionando uma relação de suspensão de tempo e espaço.
Ao espectador é pedida uma pausa, um descompasso, um pouco de observar e esperar. Em tempos em que temos sempre a sensação de rápida passagem das horas, propor essa pausa é um convite ao incomum.
Simbiose (2007) e Possuídos (2008) são trabalhos que investigam a relação entre as coisas e seu entorno, entre elementos de naturezas diferentes, não-uniformes, dessemelhantes. Natureza e cidade, planejamento e acaso, interno e externo, interações de fatores numerosos, um afetando o outro, havendo assim um aproveitamento mútuo.
O ato de possuir está diretamente ligado ao querer ter em seu poder?
Na série Possuídos, os elementos registrados pelo artista, parecem não ter tido outra escolha. Sustentam-se, complementam-se e apesar de terem objetivos ou funções diferentes, acabam sendo indispensáveis um para a existência do outro.
A parede envolve o poste, o poste penetra o teto, a cerca segura o muro, a chapa de ferro sobrepõe o portão, o telhado atravessa a parede.
Essa relação duvidosa é claramente provocada, de forma intencional, por uma necessidade humana de estruturação, para solucionar problemas de ordem física do cotidiano e esses elementos acabam se tornando possuídos e possuidores.
Segundo Edgard Morin, todo sistema complexo vive da “crise” e é essa crise que faz as coisas existirem criativamente e intensamente com autonomia. O embate de elementos diferentes ocupando o mesmo espaço faz com que observemos cada um separadamente, entendendo sua razão de existir no mundo.
Novas relações são encontradas na série “Simbiose”, título que por si só desvenda eficazmente o resultado desta investigação.
A palavra significa “associação de dois seres vivos com proveito mútuo”, mas no caso específico das simbioses assim nomeadas e registradas pelo artista, acontecem entre ser vivo e ser inanimado, ou seja, seres diferentes que produzem tensão.
Aqui os elementos não são unidos propositalmente a fim de exercer uma função, se mesclaram por obra do acaso e se tornaram necessários um ao outro a partir do momento em que passam a ocupar o mesmo espaço.
O que se faz diante da inevitável relação desses corpos é facilitar sua adaptação, sem privar nem um nem o outro de se manter presente. A aproximação do ser estranho fornece vida e demonstra interação e incorporação a favor da acomodação merecida por cada. A briga por espaço é visível e com o passar do tempo a incessante luta se torna convivência.
“Arcos Apoteóticos” (2008) é um trabalho inspirado na obra do arquiteto brasileiro ao qual nem o ângulo reto, nem a linha reta interessam, e sim a curva livre e sensual encontrada nas paisagens do Brasil e no corpo das mulheres.
Murilo se apropriou desse pensamento e procurou essa referência em uma das obras do arquiteto, os arcos da Praça da Apoteose no Sambódromo do Rio de Janeiro.
O artista visualizou em marcas de biquínis asa-delta as formas dos arcos de Niemeyer, dando concretude aos pensamentos que podem ter inspirado o desenho do arquiteto.
Reuniu fotos tiradas da internet e montou-as lado a lado construindo novos arcos apoteóticos, cheios de curvas, sensualidade e senso de humor.
Apropriação, interpretação e coisificação, essa é a seqüência seguida pelo artista na realização desse trabalho.
O que vemos no trabalho de Murilo Maia trata-se de uma característica intrínseca do ser humano, a necessidade de relação, adaptação e o embate com as coisas que lhe rodeiam. São objetos e imagens diversas, configurações complexas em processo de contínuo refazimento e incorporação.
As relações estão presentes, o entorno nos influencia e quanto mais estranho e diverso mais vital e interessante. E que as diferenças nos mantenham vivos...
Cecília Bedê / 2008








Artista: Murilo maiaCuradoria: Cecília Bedê Abertura: Dia 06 de dezembro de 2008 às 19h30Período: 06 de dezembro a 31 de janeiro de 2009

Centro Cultural Banco do Nordeste - Juazeiro do Norte/CE

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