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Lócus Transgressor, exposição de Waléria Américo


A exposição da artista plástica Waléria Américo prossegue até o dia 20 de julho no Centro Cultural Banco do Nordeste. A mostra rompe com paradigmas da arte tradicional lançando novos conceitos
O TRAMPOLIM E A CADEIRA gigante incitam ao público
reconstruir novas maneiras de ver o ambiente (Foto: Tuno Vieira)
Embora frio, o sol fazia-se refletir pelo assoalho do pavimento. Um pedaço ensolarado teimava em ir mais além que os demais. Tudo em vão! O vigor de outrora já não era o mesmo, a noite se aproximava...Enquanto o sol dava seus últimos suspiros ao dia, ali bem enfrente a mim abria-se caminho para outro mundo, com espaços, moinhos, sutilezas e ruídos próprios. Nele, tudo parece ecoar a uma busca infinita rumo a um lugar sensível e simbólico, revestido do que há de mais humano.Esse mundo, gerado a partir do ruminar intenso e retumbante do olhar e das impressões poéticas tecidas, por meio dos jogos de percepções realizados, pela artista Waléria Américo, junto as paisagens de Fortaleza e de outras cidades em que morou, nos envolve numa exploração permanente, onde as sensações e pensamentos estão em alto processo de circulação.Seguindo esse ritmo irrequieto de procura, Waléria Américo dar contornos a sua primeira exposição individual: Contínuo Transitório. Reunindo trabalhos em fotografias, gravuras, instalações e vídeos, ela constrói deslocamentos para si e para o outro (observador), desestabilizando o olhar e possibilitando a suspensão com o cotidiano.Em cada uma das pequenas ações captadas pela artista, seu corpo serve-se de mediador entre ela e o mundo. É por meio do corpo que se permite abarcar sensorialmente a cidade, vislumbrando um anseio de descobrir o que há além do costumeiro, do já visto e conhecido.´Ela parece tão grande e retilínea quantos os prédios, apesar da fragilidade inerente de seu corpo magro´, pensava isso à medida que observava a série de cinco fotografias, intitulada de ´Para ver o céu mudar de cor´ (2005).Nesse trabalho, a artista mostra através de ângulos diferentes, que lembram um vídeo, seu caminhar sobre o topo de um edifício. A sensação é de angústia e, também, de inebriamento, pois o risco de queda é grande, mas Waléria parece não ligar, prossegue em seu equilíbrio com a expressão riscada no rosto de quem procura por um lugar que é só seu. De forma serena, seu corpo dialoga com o espaço que a volteia, parece, simplesmente, fundir-se a paisagem. Não há dissociações.Já nos dois vídeos que compõem ´Mirar´ (2008), a abordagem de corpo é outra. Agora, ele está à deriva, o que possibilita a artista construir um espaço exclusivo com perspectivas fragmentadas. Ou seja, atando micro-câmeras de segurança em várias partes de seu corpo, Waléria anda pelas ruas da cidade registrando a cada movimento pedaços de espaços. Aqui, o corpo passa a assumir a função dos olhos. Ele é quem enxerga, explora e cria os territórios.Num dos vídeos, em especial, uma ´plantação´ de cataventos é mostrada em diversas posições. Ora aos pedaços, ora por inteira, por cima e por baixo, não existe uma linearidade a ser completada. Somado as imagens são articulados sons abstratos, produzidos pelo artista mineiro Breno da Silva, os quais parecem reverberar a trilha sonora da grande urbe. O ranger e o movimento das placas metálicas dos moinhos estão em constante retorno, nunca se chega a um fim. Tal aspecto se assemelha ao ritmo frenético que delineia o cotidiano cidatino.Como resultado da mais recente pesquisa desenvolvida por Waléria Américo, a exposição conta ainda com a presença de objetos inventados pela própria artista. O trampolim e a cadeira gigante incitam ao público reconstruir novas maneiras de perceberem e de se relacionarem com o ambiente. Ambos, também, fogem da idéia de serem objetos fabricados para comprimirem uma função específica. As possibilidades são muitas.Enquanto traçava essas reflexões, com uma espécie de ´pano de fundo´, ouvia-se a algazarra de um rapaz que havia subido na cadeira. Quando estava lá em cima, então, perguntei-lhe: O que você está vendo daí? Alegremente, respondeu-me: o espaço. Quem sabe não seja esse espaço que ele viu, o lugar pelo qual Waléria está sempre procurando?
OPINIÃO
A exposição ressalta sensações e pensamentos em alto processo de circulação´.Waléria AméricoArtista plástica
ANA CECÍLIA SOARES
Especial para o Caderno 3
Mais informações:
Exposição Contínuo Transitório, da artista Waléria Américo. Centro Cultural Banco do Nordeste (BNB). Em cartaz até o dia 20 de julho.

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