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Nosso Homenageado - VICENTE LEITE - Por: Edilma Rocha

O seu pensamento voava tão alto quanto aquela pipa que soltava na Batateira, nas manhãs de domingo, no Crato. O filho mais velho, Vicente Rosal Ferreira Leite de Felix Ferreira Leite e Maria Rosal Ferreira Leite, nascido no dia 6 de agôsto de 1906, O pai era conhecido como - Felix o Fogueteiro - muito pobre, porém, honrado e trabalhador, e possuia um grande orgulho na vida, em ver a sua roda de fogo brilhar nos ceus do Crato na coroação de Nossa Senhora da Penha. O nosso jovem ficou órfão de pai aos 17 anos , foi para Fortaleza e lá ingressou na força pública do Estado com soldado raso. No seu peito tinha o desejo de estudar pintura no Rio de Janeiro e guardava muito bem esse sonho, talvez impossivel.

Numa tarde de outubro do ano de 1918, foi procurar o oficial do gabinete da Presidência do Estado , levando consigo um desenho debaixo do braço e explicou que era um presente para o coronel e tinha o desejo de entrega-lo pessoalmente. Abriu lentamente o desenho a carvão diante do oficial que ficou boquiaberto com a cópia fiel do seu superior e prometeu ajuda-lo. No dia seguinte, fez a entrega do retrato ao Coronel Benjamim Barroso. Surpreso com o soldado e ouvindo pacientemente a sua história, prometeu manda-lo para o Rio de Janeiro cursar a Escola Nacional de Belas Artes como pensionista do Estado do Ceará. A policia afinou os brios do jovem artista prometendo a fina educação do conhecimento das artes estimulando o espirito e transferindo coragem, energia e elevando o conhecimento. Mas não foram estas as atitudes do Governo do Estado do Ceará, foram as entrigas, a inveja e a incapacidade de regras morais que impediram o jóvem a seguir adiante. Não foi possivel a ida de Vicente Leite ao Rio de Janeiro, voltando ao seu posto de cabo raso da fôrça pública. No Governo seguinte de João Thomé foram feitas outras tentativas. Este pediu a Assembleia do Legislativa uma lei concedendo ao pintor uma pensão para os estudos. Foi o projeto de lei elaborado e votado e modificado na redação final concedendo a outro a pensão e não ao humilde cabo da policia. Mas determinado em ajudar e amparar o rapaz, o engenheiro João Thomé lhe deu a promoção para sargento e a passagem para o Rio com os vencimentos do seu posto. Estes vencimentos deixou para a sua mãe Maria do Rosal, pois era arrímio de familia. Finalmente segui ao encontro do seu destino levando consigo o ideal de se tornar um grande pintor.Matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes que naquele tempo se fazia a admição com um teste de desenho á mão livre sôbre temas diversos e se saiu brilhantemente. Nos primeiros anos como aluno da escola lhe serviram de mestres Lucílio de Albuquerque, Rodolfho Chamberland e Batista da Costa. Logo no inicio morou no Catete, à rua Marquesa de Santos, numa meia-água como era chamada a humilde moradia. E para a sua sobrevivência fazia pequenos trabalhos de pintura para o teatro e propagandas comerciais. Terminado o curso, empregou-se numa empresa americana de retratos à pastel, melhorando os seus recursos. Concorreu ao salão Nacional e obteve o premio de Mensão Honrosa. No ano seguinte recebeu medalha de Bronze e dois anos depois com o quadro Poesia da Manhã, a medalha de Prata.

Em 1926 fez o retrato de Clóvis Beviláqua que pousou para o artista cratense. Viajou ao Ceará e realizou uma exposiçao individual e não vendeu um só quadro. Procurou vender algum para o Governo do Estado e tambem não consegui, não tinha nome para isso. Então faz a doação do retrato de Clóvis Beviláqua ao Tribunal de Justiça da cidade de Fortaleza, e o grande jurista ao tomar conhecimento do fato, o agradece com um longo e solene telegrama. Visita a mãe e volta e tem que voltar ao seio dos cariocas. A sua bagagem criou volume pois não vendeu os trabalhos e um amigo conseguiu-lhe a passagem de volta com o frete gratuito, uma vez que o fracasso não lhe restou dinheiro algum. Os quatro anos seguintes foram muito dificieis. Morou algum tempo na rua Pedro Americo, 20 no Flamengo. Ingressa na Sociedade Brasileira de Belas Artes onde é acolhido pelos amigos e mestres. Na primeira eleição ganhou por unanimidade para primeiro secretário. Tal a sua dedicação à casa foi eleito vice-presidente até o fim dos seus dias.

Em 1929, Vicente Leite foi excluido da fôrça pública do Estado perdendo a sua patente de sargento e fazendo cair por terra o valor e a concepção que poderiam valer para a cultura de um povo. Esta noticia foi recebida de maneira brutal e cruel no meio da SBBA e todos queriam fazer um protesto e publicar nos jornais em circulação, mas Vicente Leite se opôs a isso e pediu humildemente aos amigos pois achava que este fato iria denegrir a imagem do seu Estado que era tão importante e que ele era nada, um simples pintor no meio do mundo carioca. Queria manter o brio e o patriotismo que orgulhase os filhos do Crato e jamais enxovalharia o nome da sua terra. Mas de uma outra maneira a arte fica e perdura como uma essência perdida.

No ano de 1935 no Flamengo, a antiga residência senhorial da rua Marquês de Abrantes , 3, primeiro andar, sala de frente instala o seu primeiro atelier. Ali pintava e sonhava em trazer a familia para junto de si. Criou a obra que lhe deu um premio de viágem ao Brasil, um antigo sonho. A vida começava a ser mais generosa para o caririense. Realizou dois grandes trabalhos de murais que lhe renderam milhares de cruzeiros. Um no Ministério da Agricultura e o outro no Edificio Ceará, na avenida Atlântida. Seguiu para o Norte do Brasil e em seguida ao Amazonas. Pintou nossas matas e os nossos rios e um desses trabalhos está no Museu do Crato que leva o seu nome. Depois foi para o Sul, demorando-se em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. De volta ao Rio , prepara uma grande exposiçao para São Paulo que o consagrou em êxito e recompensas. Com o encerramento a emprensa lhe oferece um banquete saudado pelo jornalista Gaspar Líbero.

Em 1939 pinta um mural para o Instituto da Estiva, na avenida Venezuela, Rio. Juntando tudo que ganhou, comprou uma casa velha à rua Perreira de Guimarães, em Botafogo. Faz uma boa reforma e finalmente manda vir do Ceará a mãe Maria do Rosal e os irmãos. Na parte de cima montou o seu atelier de pintura. Em 1940 recebe o mais cobiçado premio que um artista poderia almejar no salão Nacional de Belas Arte, Viagem ao Estrangeiro com todas as despesas pagas. A critica, a imprensa, o cobre de elogios. A tela foi intitulada - ENTARDECER . Não viajou de imediato pois a Europa estavca em guerra, ficando para o ano seguinte. Em 1941 foi juri do Salão Nacional e ainda expôs dois quadros, Ribeirão e Paisagem de Campo Grande. Torna-se professor de pinturas e desenhos ajudando aos novos. Recebe um convite do Chanceler do Itamaraty para representar com os seus trabalhos os salões da Embaixada da Marinha do Brasil. Era realmente a vitória que se chegava finalmente ao menino que na infância sentava num banco da praça da Sé para observar a roda de fogo do seu pai brilhar nas noites de setembro da padroeira da sua terra, o Crato.

Não realizou a viagem a Europa, seguindo outro em seu lugar pois estava muito doente. Meses depois , em meados de outubro foi hopitalizado na Benificência Portuguesa tendo ao seu lado a mãe e os amigos. Os médicos tudo fizeram e o seu caso foi considerado grave, as tentativas com transfusões de sangue nada adiantaram. Da janela do seu quarto ver amanhecer o dia 15 de outubro do ano de 1941 e lembra pela última vez do hino da sua terra...

... Ao sopé da serra entre canaviais
Dos guerreiros da tribo cariri
Sou teu filhoAo teu calor
Cresci
Amei
Sonhei
Vivi
Quem já te viu, ó não te esqueces mais...

Foi sepultado no cemitério São João Batista no Rio de Janeiro acompanhado pela familia, amigos, artistas, intelectuais e jornalistas. As despedidas ficaram para o poeta e escritor Amora Maciel, em discurso. Menino da Batateira, nasceu para a sua arte... Ao longo da sua vida correu atrás do seu sonho... Lutou e venceu as dificuldades... E pela sua arte morreu glorioso...O nosso primeiro e grande artista cratense que levou o nome da nossa pequena cidade pelo Brasil.

Edilma Rocha


obs. desenho de Bruno Pedrosa (Museu de Arte Vicente Leite - Crato-Ce)

4 comentários:

Edilma disse...

Crystian Marques,

Admiro muito o seu trabalho em levar o conhecimento da arte aos leitores do Cariri. Tenho observado o seu quase solitário empenho em manter este blog. Que para todos nós ligados a arte e cultura de um povo, interessa em especial. O meu trabalho de restauração das obras do Museu de Arte Vicente vem acompanhado de textos relacionados. Estão publicados no blog do Crato e lhe autorizo a postar este historico.
Vou escrever aos poucos o Curriculo de todos os pintores ali representados.
Obrigada pela sua atenção

Abraços,

Edilma Rocha

Chrystian Marques disse...

È verdade, eu faço porque amo a arte, porque tb sou artista plástico, e é um estímulo para mim e para os outros artistas, para mostrar a arte do cariri para o mundo. O bbom é que já tivemos acessos importantes, como que saiu no blog do Luis Nassif, São Paulo, artistas de São Paulos add o blog aos seus blogs e por ai vai.

Abraços tb.

CHrystian

Chrystian Marques disse...

E Edilma, agradeço pela sua atenção, pela força.

Abraços

Chrystian Marques disse...

O que penso tb é que não só ao Cariri estarei levando o conhecimento da arte como divulgar para o mundo o nosso potencial Edilma, a nossa efervescência para que o mundo veja o interior e saiba que há um grande mundo aqui dentro do cariri.

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